sexta-feira, 13 de junho de 2008

Sorte de Campeão ou Campeão da Sorte?


Porque ninguém diz que o Fluminense 2008 é um time ruim? Todos estão muito ocupados em afagar o ego da torcida tricolor, que inegavelmente vive um momento inesquecível e histórico. Mas torcedor é torcedor e tem o direito de vibrar até quando o time ganha o cara ou coroa. Mas a chamada "crítica esportiva" não exerce um pingo de senso crítico ao analisar partidas-chave da campanha do Fluminense na Libertadores. Dizer que o clube carioca jogou melhor que o São Paulo, seja no jogo de ida ou no de volta, é no mínimo estranho. Na minha avaliação, no saldo dos 180 minutos o São Paulo foi muito melhor. Agora, dizer que o Fluminense mereceu, repito, MERECEU, eliminar o Boca Junior beira o autismo. O clube portenho deu uma verdadeira aula daquilo que considerávamos morto: o futebol-arte, o futebol do toque de bola refinado, das triangulações, do elemento surpresa que surge por trás da marcação, do toque no meio do absoluto nada que descobre um espaço até então inexistente.

Não, a vitória do Fluminense não foi a vitória da técnica, do melhor futebol, da pentacampeã escola brasileira. Foi a vitória da sorte, do desígnio, do destino ou cada um chame como quiser. Já tinha sido assim contra o São Paulo, no gol de escanteio no último lance. Já tinha sido assim no jogo de ida da semifinal, na Argentina, no frango do goleiro reserva Migliore. E foi assim no Maracanã, no chute de Conca, que pegou na perna do zagueiro, enganou o goleiro e entrou. "Mas é isso que faz do futebol um esporte apaixonante", dizem alguns comentaristas. Só que na minha opinião romântica (e até patética), o melhor futebol devia vencer, sempre. Assim como o melhor político devia ser eleito, o cara mais inteligente devia passar no vestibular, o melhor funcionário devia ser promovido. Enfim, coisas desse tipo que fariam o mundo ficar um tanto sem graça e previsível, admito, só que mais justo também.

O Fluminense, apesar de ótimas peças como Junior César, Thiago Silva e Dario Conca, é um time sem padrão tático, sem saída de bola consistente, sem qualidade na articulação de jogadas. A única atuação convincente que teve no ano (e já estamos em junho!) foi naquele glorioso 6 x 0 no Arsenal de Sarandi. Ali sim tivemos um time com pinta de campeão. Depois disso sobrou um time medíocre e muito, mas muito sortudo.

Daqui a 20 anos, quando algum garoto tricolor me perguntar como foi a fantástica epopéia continental do Fluminense em 2008, me sentirei obrigado a dizer, para sua decepção, que foi pura sorte. Mas com certeza passarei por maluco, pois nada melhor que o tempo para criar mitos e enterrar detalhes na areia.

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