domingo, 22 de junho de 2008

O Desmonte

O futuro do Fluminense é uma incógnita de dimensões incalculáveis. Segurando a lanterninha do Brasileirão na 7ª rodada, o clube joga um verdadeiro tudo ou nada nessa final de Libertadores contra a LDU. O melhor jogador da equipe, o zagueiro Thiago Silva, já anunciou que continua se (grifo no "se") o Fluminense conquistar o título, para disputar o Mundial de Clubes em dezembro. Ainda que conquiste será difícil segurar o outro Thiago, o Neves, que já despachou o futebol pra Europa há muito tempo. Perdendo, aí a coisa complica de vez.

Esta foto que vocês estão vendo foi tirada numa churrascaria aqui no Rio, após o empate com o Boca Juniors lá na Argentina. (Aquele ponto vermelho no centro da foto, atrás do vidro, sou eu.) À mesa vemos as três revelações das categorias de base das Laranjeiras: o goleiro Fernando Henrique, o volante Arouca e o lateral Júnior Cesar. O cavalheiro que estende as asas sobre os jovens talentos só Deus sabe quem é. Tudo leva a crer que seja um empresário, mas bem pode ser um advogado, um assessor de impresa ou coisa que o valha. Especulações à parte, toda equipe que se destaca tem seus jogadores cobiçados. Que o diga o todo-poderoso Manchester United, que está cortando um dobrado para segurar Cristiano Ronaldo. Caso o Fluminense perca o título, o desmonte será inevitável.

O Fluminense levou dois anos para montar esta equipe. A base (Fernando Henrique; Thiago Silva, Luiz Alberto, Júnior Cesar; Thiago Neves, Arouca e Cícero) estava toda lá na final da Copa do Brasil do ano passado. Recebeu o reforço de peças excelentes como Conca, Dodô e Washington, e apesar de não apresentar um futebol que me convença, alcançou um feito impensável há poucos anos atrás para um clube carioca. Mas agora, perdendo ou ganhando, vai precisar mostrar um outro tipo de talento: a fabricação de equipes em série. Esta disciplina já foi totalmente assimilada pelo São Paulo, que tem a equipe desmontada e remontada ao fim de cada temporada, e sempre ressurge como favorito.

O Fluminense, por sua vez, ainda não foi testado no quesito remontagem expressa e pode ter um teste de fogo nos próximos meses. Caso perca a Libertadores, perderá também os principais jogadores e voltará para o Brasileirão na lanterninha sofrendo de uma tremenda ressaca pós-vice. Mas então, alguém me diz, o Fluminense estará com bala na agulha para comprar grandes jogadores (para os parâmetros brasileiros, é claro). Resta saber se as peças serão bem escolhidas e se irão encaixar a tempo de conseguir uma boa posição neste que é o campeonato mais equilibrado dos últimos anos.

Quando o Fluminense pisar no gramado do Maracanã no dia 2 de julho estará disputando mais do que um título, estará definindo o futuro do clube a curto e médio prazo. É isso que faz o futebol tão emocionante, a capacidade de colocar tanta coisa em jogo em apenas 90 minutos.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O horror, o horror


É um crime o que fazem com o torcedor brasileiro. Duvido que algum outro país do mundo com tamanha identididade com o futebol inflija tanto sofrimento ao frequentador de estádio. No último sábado, cometi o erro de pensar como um torcedor londrino ou barcelonês: decidi assistir a Flamengo X São Paulo no Maracanã, faltando uma hora para o jogo. Um colega com quem eu tentaria me encontrar já havia comprado seu ingresso para as cadeiras brancas. Eu ainda teria que conquistar o meu.

Chegando às proximidades do estádio, começou a escassez de informações: onde conseguiria ingressos para a cadeira branca? Nenhuma placa, nenhuma indicação. Perguntei a vários policiais militares, que grosseiramente disseram não saber de nada. Mais surpreendente ainda foi descobrir que as pessoas nas filas também não sabiam em que fila estavam. Elas simplesmente estavam ali. No guichê, um único papel colado: arquibancadas. Perguntei a vários torcedores se ali eu poderia comprar ingressos para as cadeiras brancas. Ninguém sabia dizer. No fim de cada fila, cambistas ofereciam o alvará de soltura daquele inferno. Por um pouquinho a mais de dinheiro, eu teria o conforto de um torcedor europeu. Imbuído de alguma intrepidez sobrenatural, decidi encarar a batalha.

Uma vez acomodado, como todo mundo, na fila que eu não sabia onde ia dar, deixei de me incomodar com a falta de informações, pois dali em diante passei a lidar com o caos absoluto. A multidão permanecia enfileirada só até certo ponto, onde desaguava num grande amontoado de gente, que se expremia e se esgueirava como num grande minhocário de corpos suados. Eram três da tarde. Sol a pino. Pouco a pouco, no balançar das ondas humanas, eu avançava em direção ao guichê, que a essa altura parecia um tesouro inalcançável. Estávamos numa espécie de torneio medieval e o ingresso era o grande prêmio. De tempos em tempos, gritos de comemoração. Alguém que havia conseguido e comemorava. Vez por outra, os gritos eram de xingamento e ameaça. Alguém supostamente tentara furar a fila, como se houvesse uma.

Os guichês são pequenos buracos quadrados que ficam abaixo da linha dos ombros, tapados pela metade por uma chapa metálica pintada de azul. Uma vez ali perto, o torcedor se agarra como pode, enquanto é empurrado por todos os lados. Nos casos de meia-entrada (a esmagadora maioria) a atendente fazia questão de conferir o rosto do comprador com a foto da identidade, o que retardava e muito o processo. Eu já podia ver o guichê de perto, quando chegaram os policiais. Com os olhos injetados, testas úmidas de suor, cacetetes em riste, eles gritavam: "Todo mundo pra trás!". Os policiais empurravam, enquanto a turba retardatária devolvia o tranco. Os policiais organizavam as filas com sua habitual gentileza, viravam as costas e iam embora. Em poucos segundos tudo voltava a ser como antes.

Uma hora havia se passado, eu estava suado dos pés à cabeça, amarrotado, sujo, descabelado e ainda não tinha meu ingresso. Em plena multidão, surge um homem na casa dos 40 anos gritando: "Parem de sofrer. Comprem ingresso aqui na minha mão!". Sim, o cambista estava ali, em plena bilheteria. Depois de muitas cotoveladas, cheguei ao guichê. Lá de dentro uma mulher sentada tranquilamente me olhou com ar blasé. "Tem cadeira branca?", eu perguntei. Não consegui ouvir a resposta. "Me dá uma inteira", eu gritei lá pra dentro, na esperança de que alguém me ouvisse. Ela me devolveu o ingresso e o troco. Sair daquele alvoroço seria tão difícil quanto entrar, não fosse o sentimento de vitória que me enchia e pelos empurrões da multidão, louca para se ver livre de mais um adversário. Eu havia vencido o torneio.

Olhei o ingresso. "Cadeira Verde", estava escrito. A essa altura, pouco me importava. Faltavam poucos minutos para o jogo. Nessa hora, eu me perguntei: valeu à pena todo este sofrimento para economizar uns míseros reais não comprando na mão do cambista? Poucos em sã consciência e com algum dinheiro no bolso diriam que sim.

A incoerência reina

A incoerência reina. É fato. Logo após a letárgica participação brasileira na Copa de 2006, ouvi muitos comentaristas afirmando que, apesar da inexperiência, Dunga era uma boa escolha por ser um ícone de garra e dedicação, duas qualidades que não embarcaram para a Alemanha naquele ano. Cá entre nós, tudo leva a crer que Dunga foi chamado para tapar buraco até que Felipão terminasse seu contrato com Portugal ou outro técnico mais gabaritado pudesse assumir o time. O "problema" é que o tapa-buraco deu certo, até demais.

Em sua campanha pré-eliminatórias, Dunga teve um aproveitamento de 76,6%, à frente de nada menos que Telê Santana, Parreira e Luxemburgo. E nesta campanha, o título da Copa América foi uma afirmação gritante: 3 x 0 na toda-poderosa Argentina, com Messi, Tevez, Riquelme e cia. Hoje ninguém mais deve lembrar disso, mas a expectativa na época era por uma grande goleada portenha, afinal, eles haviam metido 4 x 1 nos EUA, 4 x 2 na Colômbia, 4 x 0 no Peru e 3 x 0 no México. Uma campanha irretocável. Enquanto o Brasil havia perdido para o México logo na estréia e se classificado para a final numa dramática disputa de pênaltis contra o Uruguai. Além do mais, o meio-campo brasileiro era ainda mais defensivo que o derrotado ontem pelo Paraguai: Mineiro, Josué, Elano e Júlio Baptista. E ao contrário daquilo que Galvão Bueno não cansou de repetir durante sua narração-sermão na partida de ontem, o Brasil da final da Copa América não precisou de dois armadores para jogar bem. Deu show com quatro volantes. Sempre que Messi ou Tevez recebiam a bola se viam cercados por dois, três, quatro marcadores. Riquelmente até hoje não sabe dizer a cor da bola. Uma vitória maiúscula, um nó tático, uma supremacia que eu não me lembrava de ter visto em partidas de Brasil X Argentina.

Os mesmos que aplaudiram Dunga naquela ocasião são os que agora marretam a formação utilizada neste Brasil X Paraguai, que foi até mais ousada, já que contou com Diego, um autêntico meia-armador. Diego sim, merece ser alvo de críticas sem cairmos no risco de incoerência, já que nunca aproveitou suas inúmeras oportunidades e corre o risco de entrar para o hall dos grandes meias-armadores que fizeram chover nos clubes e passaram em branco na Seleção. A lista já conta como Ademir da Guia, Raí e Alex. A incoerência está em criticar Dunga pelo mesmo motivo pelo qual ele já foi aplaudido de pé. Mas esperar coerência de Galvão Bueno é quixotismo demais de minha parte, admito.

sábado, 14 de junho de 2008

A bola pune, mas quem?


"A bola pune", disse Muricy Ramalho, numa frase que já nasceu antológica. Mas às vezes pune de modo totalmente aleatório e injusto. Felipe, o ídolo corinthiano que no final do ano passado abriu mão de uma excelente proposta do Fluminense por conta de sua grande identificação com o clube alvinegro (o que nem passou pela cabeça de Leandro Amaral, Dodô e Conca, por exemplo, que num piscar de olhos abandoram suas camisas P&B para vestir o uniforme multicolorido das Laranjeiras), agora é alvo de pixação, barração e crítica de todos os lados. Tudo por conta de um único lance na final da Copa do Brasil que eu sequer computo como falha sua. Vendo e revendo o lance, concluo que Felipe anteviu a cabeçada a queima-roupa de Enílton, que seria fatal. Mas a bola, caprichosa, sequer resvala na careca do atacante-dublê do Vin Diesel e cai como uma pedra entre as pernas do goleiro.

Mais determinante para a derrota do Corinthians foi a expulsão do lateral Wellington Saci, que ficou 58 segundos (!!!) em campo. É inadimissível que alguém que se diz profissional do que quer que seja ponha tudo a perder em tão pouco tempo. Imagine que você é um jornalista e acaba com uma entrevista em 58 segundos; ou que você é piloto, decola com um avião e o derruba em 58 segundos; ou que você é um médico, dá início a uma cirurgia e mata o paciente em 58 segundos. É um intervalo de tempo tão curto que para se conseguir fazer algo realmente ruim é preciso muito talento.

Os clubes, porém, são coniventes demais com esse tipo de atitude. Se fartam de reclamar da arbitragem, que está além de seus raios de atuação, mas quando um atleta - e porque não dizer funcionário? - de sua própria equipe joga o trabalho de dezenas de profissionais por água abaixo, passam a mão na cabeça, minimizam o acontecido. Basta lembrar que Diego Tardelli foi expulso tolamente contra Fluminense na 4ª rodada e nada aconteceu. Thiago Neves recebeu um cartão velho bobo contra o Grêmio na 5ªrodada e matou a reação tricolor na partida. Nenhuma punição. Segundo Mano Menezes, Saci vai ficar alguns jogos fora do time para "pensar no que fez". Se eu fosse o Mano ficaria tão revoltado que daria um motivo concreto para o rapaz ser chamado de Saci. Para ele sobraria somente o futebol paraolímpico.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Tudo no seu devido lugar

Quando Joel Santana anunciou sua saída, o comando do Flamengo ficou entre Geninho e Caio Júnior. A princípio optaria pelo primeiro, já que no ano em que Caio Junior iniciava sua carreira no Paraná, Geninho estava se consagrando campeão brasileiro com aquele timaço do Furacão em 2001 (que tinha no ataque os até então desconhecidos Kléber Pereira e Alex Mineiro). Pois bem, veio Caio Junior e sua coleção de óculos fashions. E não é que o time melhorou? Não que eu achasse a equipe do Flamengo um primor nas mãos de Joel Santana. Pelo contrário, sempre me incomodou aquele bando de cabeças-de-área que povoavam o meio-campo. Volantes como armadores, armadores como atacantes e atacantes no banco de reservas. Esse era o Flamengo do Papai Joel.

E a boa surpresa começou com o recuo de Toró para primeiro volante e de Marcinho para a armação das jogadas, o que abriu vaga para uma atacante leve, como Tardelli ou Maxi, para fazer companhia a Souza, que finalmente pode ficar em paz dentro da grande área, sem ter que sair pra buscar jogo, o que, definitivamente, não é sua praia. O time melhorou. Pior para o Figueirense, que levou uma chulapada de 5 x 0 no último sábado.

Os resultados apareceram: em cinco jogos, quatro vitórias e um empate. Não se pode esquecer que todas as vitórias foram no Maracanã e que o Flamengo cai muito de rendimento jogando fora de casa. Mas o importante é que a equipe atingiu as metas de curto prazo de Caio Júnior. Aliás, esta é a qualidade do treinador que mais me saltou aos olhos: planejar. Assim como Luxemburgo, que é o maior vencedor da era dos pontos corridos, Caio Júnior calcula, estima, elabora planilhas e mostra aos jogadores quanto uma equipe precisa ter em cada rodada para chegar ao final disputando o título. Afinal de contas, invicto mesmo só o Internacional de 79 e saber onde e quando perder é um dom para poucos.

Te cuida, Manchester United!


Nunca tinha ouvido falar da LDU, mas desde o início da Libertadores gostei do time equatoriano. Já na estréia contra o Fluminense, lá na longínqua primeira fase, mostrou personalidade, botou a bola no chão, saiu jogando e pressionou do início ao fim. Não saiu com a vitória por casualidade. E ali já se revelava a cara do time tricolor: segurar atrás do jeito que dá e rezar para algo funcionar lá na frente. Diga-se de passagem, isso é a cara do técnico Renato Gaúcho, que não cansa de repetir aquele discurso batido de que tem estrela, de que é o cara, de que nasceu pra brilhar e blá-blá-blá.

A LDU me convenceu de vez nas oitavas-de-final, nos dois jogos contra o Estudiantes, o então líder do campeonato argentino. 2 x 0 pro time equatoriano numa partida muito bem jogada. No jogo da volta, uma derrota por 2 x 1 num estádio abarrotado de argentinos, que fizeram uma belíssima festa, mas que não foi o suficiente para fazer o time avançar. Eliminados, com Verón e tudo.

Já contra o San Lorenzo pecaram pela soberba. Depois de conquistarem um empate no jogo de ida, na Argentina, e de ficarem com um jogador a mais desde os 30 minutos do primeiro tempo jogando em casa, relaxaram. Ficaram tocando bola daqui pra lá, de lá pra cá. Resultado: empate heróico do San Lorenzo que arrastou a decisão para os pênaltis. Por sorte o deslize não foi punido com o rigor máximo. Passou o melhor. Passou a LDU. E depois de uma semifinal sonolenta contra o América do México saiu de dois empates classificada para a final.

A LDU não foi o melhor time da Libertadores. Esse "título" é do Boca. Mas com certeza apresentou melhor futebol que o Fluminense. O ponta direita Guerron (já negociado com Getafe, da Espanha) e os meia Bolaños e Manso são ótimos jogadores. Dão muita velocidade, habilidade e qualidade de passe ao time. Já o centro-avante Bieler é uma negação. Perde gol que nem eu em pelada de fim-de-semana. O goleiro Cevallos também é fraco, inseguro. Mas é um time com padrão tático, com jogadas bem articuladas, que faz a bola rolar de pé em pé com qualidade.

A diferença da LDU pro Fluminense é que o time equatoriano não contou com a sorte para chegar até a final. Resta saber se a sorte vai continuar ao lado do tricolor, porque se estiver, aí já era, não tem pra ninguém. Te cuida, Manchester United!

O ápice do antijogo



O placar era Palmeiras 0 x 1 Cruzeiro. O eficiente time mineiro ia conseguindo um feito importante em sua caminhada rumo ao título. Aos 30 minutos do primeiro tempo, Valdívia fez bela jogada individual e saiu na cara do goleiro Fábio. Ele podia escolher um canto e bater, tentar mais um drible e fazer um gol de placa ou quem sabe chutar por cobertura, o que não seria menos bonito. Mas Valdívia decidiu dobrar os joelhos e cair. O que leva um jogador a optar por fraudar o esporte que lhe sustenta ao invés de lhe oferecer um raro momento de beleza é algo que me inquieta. A escolha de Valdívia precisa ser analisada com atenção. Dentro do contexto do futebol brasileiro, onde cada vez mais jogadores desmontam como playmobils diante da simples aproximação dos zagueiros adversários, a atitude de Valdívia é emblemática. De cara pro gol, ele escolhe a simulação, a fraude. É o ápice do antijogo.

As consequências: o zagueiro cruzeirense Thiago Martinelli foi expulso, o jogo passou para o controle do Palmeiras, que acabou goleando por 5 x 2. Uma potencial vitória mineira fora de casa transformou-se numa flagorosa derrota por goleada. Tudo isso graças ao momento-chave da partida que nada teve de esportivo. Quando teremos um verdadeiro tribunal de vídeo, que julgue imagens como essa e puna os fraudadores do esporte, que mancham o futebol com esse tipo de espetáculo de mau-caratismo?

"O pesado sou eu"

"Não, a culpa é minha, o pesado sou eu, o pé-frio sou eu...", disse o técnico Cuca no vestiário do Botafogo após a eliminação na semifinal da Copa do Brasil. Essa declaração me deixou meio pra baixo. Já está mais do que provado que Cuca é competente. Montou não uma, mas duas boas equipes no Botafogo, com peças um tanto limitadas. Em 2007, o "Carrossel Botafoguense" não dispunha de nenhum grande nome, a exceção de Dodô. Mas a formação Luciano Almeida, Alex, Juninho, Joílson; Túlio, Leandro Guerreiro, Zé Roberto, Lúcio Flávio; Dodô e Jorge Henrique foi de encher os olhos. Deixei de assistir os jogos do meu time pra assistir aos shows dominicais alvinegros. Futebol ofensivo, de muita movimentação por todos os setores do campo e de belos passes.

O time desse ano não era tão vistoso, mas cumpriu a promessa de ser mais competitivo, só que ainda assim o título não veio e aí começa a neurose. Apesar de não haver pressão de torcida ou diretoria, Cuca abandonou o barco por não suportar o fardo de não vencer. A frase "o pesado sou eu" é dura e extremamente auto-punitiva. É a conclusão de alguém que a essa altura poderia ser bicampeão carioca, campeão brasileiro, sul-americano, da Copa do Brasil ou quissá estar numa final Libertadores, mas que no frigir dos ovos não é nada, absolutamente nada. O trabalho, apesar de extremamente competente, não foi coroado, não recebeu a tarimba dos deuses do futebol, como uma espécie de Torre de Babel amaldiçoada pelos altos céus. Isso machuca mais do que ser apenas incompetente.

Sorte de Campeão ou Campeão da Sorte?


Porque ninguém diz que o Fluminense 2008 é um time ruim? Todos estão muito ocupados em afagar o ego da torcida tricolor, que inegavelmente vive um momento inesquecível e histórico. Mas torcedor é torcedor e tem o direito de vibrar até quando o time ganha o cara ou coroa. Mas a chamada "crítica esportiva" não exerce um pingo de senso crítico ao analisar partidas-chave da campanha do Fluminense na Libertadores. Dizer que o clube carioca jogou melhor que o São Paulo, seja no jogo de ida ou no de volta, é no mínimo estranho. Na minha avaliação, no saldo dos 180 minutos o São Paulo foi muito melhor. Agora, dizer que o Fluminense mereceu, repito, MERECEU, eliminar o Boca Junior beira o autismo. O clube portenho deu uma verdadeira aula daquilo que considerávamos morto: o futebol-arte, o futebol do toque de bola refinado, das triangulações, do elemento surpresa que surge por trás da marcação, do toque no meio do absoluto nada que descobre um espaço até então inexistente.

Não, a vitória do Fluminense não foi a vitória da técnica, do melhor futebol, da pentacampeã escola brasileira. Foi a vitória da sorte, do desígnio, do destino ou cada um chame como quiser. Já tinha sido assim contra o São Paulo, no gol de escanteio no último lance. Já tinha sido assim no jogo de ida da semifinal, na Argentina, no frango do goleiro reserva Migliore. E foi assim no Maracanã, no chute de Conca, que pegou na perna do zagueiro, enganou o goleiro e entrou. "Mas é isso que faz do futebol um esporte apaixonante", dizem alguns comentaristas. Só que na minha opinião romântica (e até patética), o melhor futebol devia vencer, sempre. Assim como o melhor político devia ser eleito, o cara mais inteligente devia passar no vestibular, o melhor funcionário devia ser promovido. Enfim, coisas desse tipo que fariam o mundo ficar um tanto sem graça e previsível, admito, só que mais justo também.

O Fluminense, apesar de ótimas peças como Junior César, Thiago Silva e Dario Conca, é um time sem padrão tático, sem saída de bola consistente, sem qualidade na articulação de jogadas. A única atuação convincente que teve no ano (e já estamos em junho!) foi naquele glorioso 6 x 0 no Arsenal de Sarandi. Ali sim tivemos um time com pinta de campeão. Depois disso sobrou um time medíocre e muito, mas muito sortudo.

Daqui a 20 anos, quando algum garoto tricolor me perguntar como foi a fantástica epopéia continental do Fluminense em 2008, me sentirei obrigado a dizer, para sua decepção, que foi pura sorte. Mas com certeza passarei por maluco, pois nada melhor que o tempo para criar mitos e enterrar detalhes na areia.

O Sacro Império do Clichê


Por que criar mais um blog? Mais um. Ainda mais sobre futebol, que não é, nem de longe, minha especialidade. Mas tenho uma série de reflexões e revoltas que gostaria de compartilhar, coisas que se você carregar no peito durante muito tempo acaba virando doença, câncer, sei lá. Por isso mais um blog.

Sou um assíduo espectador de futebol. Assisto campeonato paulista, carioca, série A, série B... Assisto qualquer coisa esférica que se chute sobre a grama. Às vezes o jogo é bom, às vezes (na maioria) é ruim. Mas o que é sempre ruim são os programas sobre futebol. É incrível como pessoas que são pagas só e unicamente para falar sobre futebol não se dão ao trabalho sequer de reciclar seus clichês. É sempre a mesma ladainha. Nenhuma partida tem favorito à vitória, dois jogadores nunca podem ser comparados porque "cada um tem características próprias" e - claro, o clichê número um do mundo da bola- "o futebol hoje em dia está muito nivelado". Ora, se está tudo nivelado, todo mundo é meio barro, meio tijolo, ninguém é melhor que ninguém, não existe razão para existir crítica esportiva!

E assim surge esse pequeno blog, onde vou tentar extravasar minha revolta contra o Sacro Império do Clichê, que domina sem oposição o mundo da bola. Extravasar sai mais barato que terapia.