segunda-feira, 16 de junho de 2008

O horror, o horror


É um crime o que fazem com o torcedor brasileiro. Duvido que algum outro país do mundo com tamanha identididade com o futebol inflija tanto sofrimento ao frequentador de estádio. No último sábado, cometi o erro de pensar como um torcedor londrino ou barcelonês: decidi assistir a Flamengo X São Paulo no Maracanã, faltando uma hora para o jogo. Um colega com quem eu tentaria me encontrar já havia comprado seu ingresso para as cadeiras brancas. Eu ainda teria que conquistar o meu.

Chegando às proximidades do estádio, começou a escassez de informações: onde conseguiria ingressos para a cadeira branca? Nenhuma placa, nenhuma indicação. Perguntei a vários policiais militares, que grosseiramente disseram não saber de nada. Mais surpreendente ainda foi descobrir que as pessoas nas filas também não sabiam em que fila estavam. Elas simplesmente estavam ali. No guichê, um único papel colado: arquibancadas. Perguntei a vários torcedores se ali eu poderia comprar ingressos para as cadeiras brancas. Ninguém sabia dizer. No fim de cada fila, cambistas ofereciam o alvará de soltura daquele inferno. Por um pouquinho a mais de dinheiro, eu teria o conforto de um torcedor europeu. Imbuído de alguma intrepidez sobrenatural, decidi encarar a batalha.

Uma vez acomodado, como todo mundo, na fila que eu não sabia onde ia dar, deixei de me incomodar com a falta de informações, pois dali em diante passei a lidar com o caos absoluto. A multidão permanecia enfileirada só até certo ponto, onde desaguava num grande amontoado de gente, que se expremia e se esgueirava como num grande minhocário de corpos suados. Eram três da tarde. Sol a pino. Pouco a pouco, no balançar das ondas humanas, eu avançava em direção ao guichê, que a essa altura parecia um tesouro inalcançável. Estávamos numa espécie de torneio medieval e o ingresso era o grande prêmio. De tempos em tempos, gritos de comemoração. Alguém que havia conseguido e comemorava. Vez por outra, os gritos eram de xingamento e ameaça. Alguém supostamente tentara furar a fila, como se houvesse uma.

Os guichês são pequenos buracos quadrados que ficam abaixo da linha dos ombros, tapados pela metade por uma chapa metálica pintada de azul. Uma vez ali perto, o torcedor se agarra como pode, enquanto é empurrado por todos os lados. Nos casos de meia-entrada (a esmagadora maioria) a atendente fazia questão de conferir o rosto do comprador com a foto da identidade, o que retardava e muito o processo. Eu já podia ver o guichê de perto, quando chegaram os policiais. Com os olhos injetados, testas úmidas de suor, cacetetes em riste, eles gritavam: "Todo mundo pra trás!". Os policiais empurravam, enquanto a turba retardatária devolvia o tranco. Os policiais organizavam as filas com sua habitual gentileza, viravam as costas e iam embora. Em poucos segundos tudo voltava a ser como antes.

Uma hora havia se passado, eu estava suado dos pés à cabeça, amarrotado, sujo, descabelado e ainda não tinha meu ingresso. Em plena multidão, surge um homem na casa dos 40 anos gritando: "Parem de sofrer. Comprem ingresso aqui na minha mão!". Sim, o cambista estava ali, em plena bilheteria. Depois de muitas cotoveladas, cheguei ao guichê. Lá de dentro uma mulher sentada tranquilamente me olhou com ar blasé. "Tem cadeira branca?", eu perguntei. Não consegui ouvir a resposta. "Me dá uma inteira", eu gritei lá pra dentro, na esperança de que alguém me ouvisse. Ela me devolveu o ingresso e o troco. Sair daquele alvoroço seria tão difícil quanto entrar, não fosse o sentimento de vitória que me enchia e pelos empurrões da multidão, louca para se ver livre de mais um adversário. Eu havia vencido o torneio.

Olhei o ingresso. "Cadeira Verde", estava escrito. A essa altura, pouco me importava. Faltavam poucos minutos para o jogo. Nessa hora, eu me perguntei: valeu à pena todo este sofrimento para economizar uns míseros reais não comprando na mão do cambista? Poucos em sã consciência e com algum dinheiro no bolso diriam que sim.

Um comentário:

fjunior disse...

cadê o comentário sobre o jogo de ontem????
cheguei aqui ávido, achando que estaria mais uma de tuas análises... o jogo de sábado eu quero esquecer...rs